segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Transiberiano - de Moscou a Ulaanbaatar

Confesso que, num primeiro momento, ir de trem da Rússia para Mongólia parecia ser atraente apenas pelo dinheiro que eu economizaria com as passagens. Foi o melhor e maior engano da minha vida. Não era apenas isso. Passar 5 noites dentro de um trem, no meio de lugar nenhum, é simplesmente uma experiência fantástica.

Já adianto que um simples texto jamais conseguirá transparecer tudo o que vivi e o que vi. Afinal, uma imagem vale mais do que 1.000 palavras. Mas, como a escrita é uma de minhas paixões, não poderia deixar de escrever sobre.

Maravilha! Bora viajar!

Comprei segunda classe, ou seja, dividiria uma cabine com mais 3 pessoas no máximo. Além disso, o vagão (capacidade para 24 pessoas) contava com 2 banheiros. Tudo muito tranquilo para quem morou no MC (diretoria da AIESEC no Brasil) por um ano.

Uma das primeiras coisas que pensei foi: “Quem irá dividir a cabine comigo? Será que fala inglês ? - eu juro que achava impossível; Putz, precisarei fazer alguma amizade, 4 dias num trem sem abrir a boca será tenso!”. E junto a isso: “Do jeito que sou sortudo, certeza que minha cabine será no mínimo estranha, com um chinês que ronca e um russo que cospe dormindo”. E esse foi o meu segundo melhor e maior engano. Duas suecas! Loiras! Muito bonitinhas viu? Parecia que eu estava numa cena do EuroTrip ou American Pie. Ok, parei!

Para completar meu estado de surpresa positiva, fora os dois chineses que trabalhavam no trem, somente estrangeiros: 4 ingleses, 1 polonês, outros 4 suecos, 4 franceses e um casal norueguês. E eu começava a visualizar uma possível festa em cima dos trilhos.

Porém, contudo, todavia, não só de surpresas boas a viagem foi constituída. NO SHOWER! SEM BANHO! Cinco noites! É meu amigo, como diria Milton Leite (da SporTV), que beleza! Depois que fiquei sabendo que não tinha chuveiro eu parei para raciocinar: realmente, seria complicado e complexo ter um chuveiro no meio de um trem. Enfim, nada que uma lavadinha diária nas axilas e um bom perfume não resolvessem. =]

Vamos lá: tenho uma cama, sem banho, possíveis amigos. O que mais preciso para sobreviver? Alimentação, sempre muito importante. Para demandar menos de seu tempo, fiz um vídeo para explicar (obs.1: no meio do vídeo falo que vou colocar outro, mentira; obs.2: o custo por refeição foi menos de R$ 1,50, não R$ 3,00 como falei)



Fora a maquininha milagrosa de água quente, durante as várias paradas do trem, podíamos comprar comida, bebida, etc. Sempre negociando com os vendedores ambulantes.

Hummm...acomodação, pessoas, comida. O que falta? Paisagens? Festa? Não. Ainda. Vamos para os passatempos. O melhor fica pro fim.

Cinco dias trancafiado num vagão não é fácil. O jeito foi: dormir, ler (muito), conversar, jogar cartas (ensinar “sueca” para as suecas foi bacana), Ludo e.....

....beber! Ahaaa! Infelizmente não foram todos que foram pra festinha de quinta, sexta e sábado, mas ela se tornou lei para mim, ingleses, suecas e o polonês. Muita cerveja e novos “drinking games” marcaram os momentos hilários do vagão número 7, trem 43A.

Ok. Agora um momento tenso desse post. Que fique claro que as cenas abaixo são apenas um parêntese na vida de um viajante solitário e que a inclusão deste vídeo aqui se deve, única e exclusivamente, aos “milhares de 3 pedidos” para colocar algo diferente no blog. No fundo, espero que seja uma oportunidade de alavancar as fronteiras de meus textos e expandir o número de leitores. Segurem o coração. Durante a festa em um trem, um bebadinho...




....Hehehe.

Sem mais delongas, voltemos ao que realmente interessa: a viagem. A parte mágica e realmente enriquecedora está nas paisagens contrastantes e únicas.

Contrastantes porque mostram o lado de uma Rússia que eu não conhecia afundo. Uma Rússia subdesenvolvida e com grandes diferenças. A simplicidade das moradias nos arredores de Moscou e no interior do país só comprovou que, infelizmente, o título de emergente não serve para uma nação inteira, mas para um grupo restrito. Assim como no Brasil. Assim como no mundo. Reflexão.

Paisagens únicas porque no final das contas o que realmente te deixa entusiasmado* e com vontade de desbravar o Planeta Terra são as belezas da natureza. Após um começo de viagem onde minha visão era “Árvore, árvore, árvore, poste, árvore, árvore, sai da frente trem, casa de madeira, árvore”, adentrar uma região pouco povoada me fez feliz demais. Grandes lagos, belas montanhas, a mistura de civilização e natureza, pequenos animais soltos pela mata, cavalos selvagens dando forma a liberdade e um pôr-do-sol mais espetacular que outro. Tudo em perfeita sintonia, arrancando sorrisos daqueles que tiveram o privilégio de presenciar “a forma mais pura da criação” através da pequena janela de uma locomotiva.

*o significado da palavra entusiasmo é “ter Deus dentro de si”

E assim foi o Transiberiano. Literalmente um intercâmbio intensivo de cinco noites, vendo o que poucos podem (mas devem) ver, vendo o que palavras não conseguem solidificar.

Cinco noites, das quais relembrarei e contarei com alegria, até meu último suspiro.

Beijos e abraços e até a próxima.

Obrigado por sua visita.

Mais fotos? Orkut Picasa

Twitter: @gustavobonafe